Tudo (quase) como sempre

April 8, 2018

         A manhã bateu, como sempre, pancadas de débil luz na janela do quarto. Levantei-me devagar, como de costume, para não te acordar. Lembrei-me. Olhei o seu lado da cama, e o travesseiro intacto, a colcha lisa escondendo o lençol virgem do teu corpo - um branco lago raso com superfície intocada, raso como o colchão sem você.

         O dia transcorreu quase igual, vez ou outra apenas me pinicava o desconforto com o silêncio do celular para as suas mensagens - nada de a tela se acender e o toque me avisar que você me chamava.

         À noite, a escuridão ditou normalidade, comprovada pela quietude da casa, pelas poucas luzes que sempre deixamos acesas. Mas no quarto, o seu lado da cama continuava com renitência de calmaria, pregava sermão da sua ausência na beatitude da imaculada colcha clara.

         Assim, os dias sempre começando com as batidas da claridade, as noites florescendo escuridão no jardim das tardes mortas e a cama, agora coberta por colcha marrom, na insistência de permanecer vazia e de tornar-se cada vez maior.

         Mas os dias têm horas demais para que eu consiga emudecer minha carência.

         Outro dia, eu olhava a chuva pela porta de vidro da sala e quase ouvi você dizer “que maravilha…”. Vejo fotos nossas na parede do escritório: minha mão sempre no seu ombro, a sua na minha cintura, os sorrisos. Não trago biscoitos para o café da tarde, que parei de passar porque não há sabor se uma xícara não tem ao menos outra para dialogar.

         De modo que tudo segue quase como sempre. 

         A normalidade se embaraça na cama vazia, que cada dia mais aderna no meu lado, afundando-me no mar da sua falta, tornando-me um náufrago ilhado numa vida sem viço.

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