O vento e os olhos miúdos

April 1, 2018

         As ventanias sempre me trazem minha avó.

         A casa dela tinha um quintal grande, impensável nos dias atuais. Ela cultivava uma pequena horta, um pequeno pomar, criava umas poucas galinhas.

         Cruzando uma boa parte do quintal, havia um varal em que bambus sustentavam arames farpados. Se bem que os bambus só paravam em pé pela complacência dos arames, que os deixavam neles se apoiarem. Então, não sei quem sustentava quem.

         A casa toda convivia naqueles arames - roupas, toalhas de mesa e de banho, lençóis - numa cumplicidade de esvoaçamentos.

         E sempre que minha avó sentia o vento ganhar corpo, ao passar pelas frestas, com gritos que me pareciam de dor, ela saía desesperada para salvar os tecidos, a se debaterem em desesperos de náufragos. Minha avó os recolhia, levando-os à segurança da ilha de um quartinho, amontoando-os na praia de uma mesa.

         Enfrentava com xingamentos a ventania, a saia presa entre os joelhos para que o vento não conseguisse seu desejo, para ela  diabólico, de deixá-la nua.

         O varal, alimentado pela casa cheia, vivia vergado, empanturrado pelas fibras encharcadas de água que ele sustinha.

         Às vezes, eu a via encarar a ventania com os olhos miúdos, semicerrados pela fúria do vento insolente. Na época, o menino que eu era julgava que ela o desafiava. Hoje, sei que minha avó media a força do vento, e suas ameaças de se tornar um vendaval, para poder socorrer, como um general atento, seus pobres soldados de pano.

         Não há mais soldados, nem quintal, nem varal.

         Apenas eu e o vento, que eu encaro com olhos miúdos, a desafiá-lo para que me diga para onde levou minha avó.

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