Esta noite interna

March 11, 2018

         Deu sorte de um assento preferencial do ônibus cheio se desocupar assim que ela entrou. Uma outra velha tomou a direção do assento, mas ela foi mais rápida - sentada sente menos dor, e a sombra da dor acelerou-lhe os passos.

         O enorme envelope com o exame é um incômodo - um incômodo não tão grande quanto a dor, mas que a deixa atrapalhada para achar um lugar para o volume. Acaba colocando-o entre o assento e a lateral do ônibus. Tem receio de esquecê-lo - a cabeça lhe tem falhado - por isso, laça-o com a alça da bolsa, que carrega em seu colo.

         Não se dá bem com vaidades, mas uma visita ao médico pede atenções de uma sandália melhor, pede o vestido predileto, um pouco mais de tempo para arrumar o cabelo. A velha sandália pouco usada magoa-lhe o pé esquerdo, cuidado com a prevenção de um esparadrapo; o vestido lhe aperta um tantinho na cintura - sente-se bem, é o que importa.

         Sente-se bem, tirando a dor. Mas, com o exame, o médico vai dizer o remédio certo para se livrar dela.

         “Proteja-me Deus que não seja um tratamento caro.”

         No ônibus cheio, as pessoas carregam seus dias e noites em silêncio, sem darem pistas se há mais luz ou escuridão dentro de si, muitas entregues à conversa de dedos com a tela de um celular. Ela mesma, assim bem arrumada e disposta, a olhar distraída pela janela o movimento da cidade, não mostra a dor, não espalha a noite que a incomoda, que lhe retira o sono e cala a voz do apetite - a noite a lhe habitar o corpo há alguns bons meses.

         Vê aproximar-se o seu ponto, aciona a campainha para descer.

         A bolsa desenlaçou o exame, mas ela não o esquece - a dor, parece-lhe, faz bem à memória.

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