Noite

February 18, 2018

         Os homens se vangloriam de seus monumentos milenares apenas para exaltarem a si mesmos, olharem para pedras há muito trabalhadas e nelas verem sua própria grandiosidade, uma imortalidade que essas ditas maravilhas não pediram e que as cansa - a imortalidade é de uma exaustão tão grande quanto a própria duração de sua existência.

         Sei o que falo. Perambulo pelo mundo desde que ele gira em torno de si. Desde sempre vagueio a passos calculados, atentando-me a eles com cuidados de evitar atropelos, de não avançar parte alguma do meu corpo em ansiedade de pressa - desde o ontem mais remoto sempre a mesma cadência.

         Acho engraçado os homens se referirem a mim como o “véu”, o “manto”, a “sombra” e outros nomes envoltos pelo etéreo, pelo diáfano.

         Nenhum deles, os homens, imagina o que é arrastar o peso da escuridão. O esforço para marchar numa precisão militar com a sutileza de pés cuidadosos, levando meu corpo negro a cobrir metade do mundo.

         Os homens erram duas vezes. Acusam-me de despertar maldades e de esconder a crueldade dos homens contra outros homens. Escondo coisa alguma: o mal passeia pelo mundo com olhos abertos à espera da cegueira que o acolhe.

         Mas todo o cuidado com o vagar, todo o peso que carrego, toda a imortalidade que me habita são incapazes de ofuscar certas alegrias - sempre as mesmas e ainda assim, em todos os momentos, frescas.

         Quando toco os monumentos milenares e lhes ouço os lamentos, alegra-me consolar. Quando me derramo sobre as montanhas, enterneço-me com a preocupação de suas agudas pedras, crentes serem capazes de me ferir. Quando me molho nas águas dos mares, inebrio-me com a nossa troca de confidências sobre escuridão.

         E quando parto, divirto-me com os pássaros a cantarem aos medrosos dos homens não mais ser necessária a fragilidade do sono.

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