Nos horizontes, janelas

February 11, 2018

        Sabe que está amanhecendo porque a noite entrou em seu outono, quando perde folhas de escuridão para o vento da primavera da claridade do dia. O sinal também surge nas luzes que escapam de algumas de suas janelas, no recado de que as pessoas já se levantam, consumindo, em digestões de vigília, o sono que nutria os apartamentos.

         Há muito os raios de sol tocam pouco os seus tijolos numa visita tímida e rápida, como se suas paredes não passassem de escombros a não merecerem luz e calor.

         Seus horizontes, antes abertos ao nascer e pôr do sol, foram fechando-se com outros tijolos, com tantos andares e janelas de outros prédios, mergulhando-o nos abafamentos da claustrofobia. A rua estreita do beco também não ajuda suas janelas a respirarem ar fresco.

         De modo que algumas de suas paredes têm com o mofo uma convivência indesejada. Os bolores se espalham pelos cantos baixos e quinas no aproveitamento da penumbra, gratos à palidez do prédio.

         O frio da manhã já se foi, poucas janelas estão abertas na respiração possível com o ar que entra.

         Os outros prédios contam sobre os passos do sol no encurtamento de suas sombras. Alguns raios escapam da barreira dos andares, chegam aos seus tijolos e lhe pinicam promessas vazias de maiores visitas.

         Somente ao meio do dia consegue perceber o sol inteiro sobre si, num banho de minutos que não preocupa os mofos.

         Quando o mundo adquire uma luz amarelada é sinal de que o dia começa a fenecer. Logo, a sua noite. Noite que nada mais é do que a penumbra adensada, do que a sombra vestida por camadas de outras sombras em que a lua é visita ainda mais fortuita do que o sol.

         E a ausência da lua deixa mudos os cães que o habitam.

 

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