Alguns raios de claridade

January 28, 2018

         Um pé da cadeira se enlaça na tira de uma das sandálias da velha, que apóia a mão esquerda na mesa, enquanto joga o peso de seu corpo sobre o braço direito, amparado pela filha, que ainda não percebeu o que se passa com a mãe. A velha abre a boca, mas a frase de desconforto não sai e seus lábios ficam abertos, dando-lhe a expressão de espera de um iminente acidente, seus olhos fixos no nada.

         O braço da filha é apoio desde que ela saíra do carro até a mesa, caminhando juntas na lentidão das procissões. As sandálias da velha se arrastavam como se, a cada passo, a incerteza do chão.

         Quando está em casa, vira-se bem sozinha, tem o auxílio dos móveis, a oferecerem suas carnes de madeira com resmungos de rangidos.

         De início, não havia reclamações, a velha se apoiava e os móveis suportavam-lhe o peso na lealdade de tantos anos juntos. Mas as cadeiras, mesas e cômodas foram sentindo o tempo lhes cansar as articulações, afrouxando-lhes as juntas, bambeando-lhes os pregos.

         O mesmo cansaço foi-se aninhando na senhora como vaga penumbra a lhe ofuscar o sol da vitalidade. Aconchegou-se aos poucos ao corpo distraído, abraçando músculos, ossos, acomodando-se nos punhos, joelhos, lentamente fazendo com que a penumbra se adensasse cada vez mais, trazendo a noite aos movimentos da mulher.

         De modo que agora, prestes a se desequilibrar por causa da sandália presa, a velha balbucia “minha sandália” para a filha, que se abaixa na rapidez dos afoitos.

         Finalmente sentada, terá de negociar, com a noite que lhe escurece os movimentos, terá de negociar alguns raios de claridade que lhe permitam a dignidade de controlar os talheres.

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