Quase tudo se foi

January 14, 2018

         “Ir embora pra casa”.

         Foi a resposta do velho à pergunta da filha se ele queria alguma coisa.

         Ao ouvir a pergunta, ele a olhou nos olhos por alguns segundos. Nunca gostara de incomodar, e sabia que tirá-lo do hospital traria incômodos, principalmente a sua mulher. Mas o desejo de terminar os dias em seu quarto fez com que não pensasse daquela vez nos outros. Além do mais, o incômodo não seria longo, definitivamente não daria trabalho a mais ninguém em breve.

         Puseram-no no antigo quarto da filha, quarto agora usado pela neta, quando resolve passar uns dias na casa dos avós.

         O velho nada disse. Apenas pediu que lhe trouxessem o seu travesseiro. Recostou a cabeça, olhou para a filha e para a mulher e sentiu-se estranho em ter a visão pela perspectiva que a filha tinha.

         Estava em casa - assim lhe estava bem.

         Durante o dia, consegue sentar-se durante um bom tempo na cama. A sonda o poupa de ter de ir ao banheiro. Andar é opção complicada, tem medo de a mulher não conseguir dar-lhe amparo, prefere dar apenas poucos passos ao redor da cama, apoiando-se no colchão.

         Vez ou outra, a mulher vai ao quarto e lhe pergunta se precisa de algo. Reparou que, quando o visita, a filha o questiona se quer algo, já a mulher, se precisa.

         Tendo agora as paredes do quarto por distração e o tempo por companhia - uma companhia piedosa que não lhe diz quando irá embora - o velho gasta minutos a pensar na diferença entre o que quer e o que precisa.

         Está tranquilo.

         Entre querer e precisar, espera apenas ter a bênção da inconsciência.

         Para que, assim, não veja o tempo partir, privando-o dos desejos, livrando-o das necessidades.

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