Dias práticos

December 3, 2017

        Fecha a porta do carro com violência. O marido reclama, e esse é o terceiro desacordo do dia. Presa em sua cadeirinha no banco de trás, a criança não percebe o desentendimento dos pais, repetindo em voz baixa “eu quero vê minha avó…eu quero vê minha avó…”. Sobe o tom e a veemência ao ver o pai dar partida no carro e a casa dos avós ser deixada para trás.

         Na terceira insistência exaltada da menina, a mãe a manda calar a boca, mas ela apenas volta ao tom anterior.

         O caminho para casa é feito em silêncio, a menina preocupada em ajeitar a roupa de sua boneca.

         O domingo já acabou. O que resta são fiapos de horas pastosas, donas de minutos que serão diluídos diante da TV numa passividade de corpos largados no sofá à espera do momento em que a cama traga à casa o silêncio.

         Normalmente dormem cedo. O fim do capítulo da novela lhes marca o fim do dia como uma ordem muda, um toque de recolher inquestionável e prático.

         Durante a semana, a menina dorme, na maioria dos dias, ao meio do capítulo, cansada pelo dia na escolinha. A mãe a leva para a cama e o casal termina de assistir à novela na TV do quarto, na praticidade de poderem ir chamando o sono. Os intervalos servem para se prepararem para dormir: ir ao banheiro, escovar os dentes, um último copo de água.

         Os assuntos do dia, que passaram distantes um do outro, são tratados em frases soltas e em momentos aleatórios, em meio às músicas da escolinha que a criança canta. Muitas vezes a falta de paciência de ambos encerra a conversa com um ou dois gritos - é mais prático e menos cansativo não alongar discussões.

         Vivem assim numa combinação afinada, a empilharem com praticidade as obrigações dos dias.

         E para quebrar os dias iguais, seguidos por noites iguais, reservam as noites de sábado para os desencontrados prazeres de uma intimidade às escuras.

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