Lagos e Mares

November 5, 2017

         Faltam dez minutos para as duas e meia da tarde, horário em que se iniciam as visitas diárias, e a mulher está pronta. Na verdade, já está pronta há vinte minutos.

         Sentada em uma cadeira na varanda, olha a movimentação dos outros idosos, a buscarem seus lugares de sempre. A repetição os embala numa calmaria de lagos - aos velhos sobram apreços pelos lagos e desassossegos pelos mares.

         Mãos postas sobre as coxas, vez ou outra a mulher abre os lábios num suspiro curto, puxa o ar em leve ansiedade pela espera. E ela não quer borrar o batom, por isso o movimento cuidadoso dos lábios.

         Sua filha tem sido uma das primeiras a chegar. Caminham juntas pelo jardim, conversam um pouco, ela não reclama muito, pois quase não há do que reclamar. De vez em quando, a filha traz suas duas netas. Mas há dias em que ela não tem paciência com a agitação das meninas - sempre o desejo pela calma do lago às espumas brancas do mar agitado. O genro ainda não a visitou, veio apenas quando a trouxeram, três semanas atrás.

         Teve receios ao chegar. Não sabia como os outros a receberiam, como seria dividir quarto com duas estranhas. Mas após dois anos de viuvez, fora convencida pela filha a se mudar para o asilo. Não conseguia viver só.

         A timidez lhe foi aliada. Passou os primeiros dias pelos cantos, observando a movimentação, conhecendo os hábitos e a rotina. Claro que as visitas diárias da filha a têm ajudado. E a convivência com as companheiras de quarto tem sido boa.

         Há idosos que todos os dias tomam seus lugares à espera dos parentes, que acabam não vindo. Mas a espera é barco distraído que não se percebe naufragar. Alguns nem saem de seus quartos, buscando distância do burburinhos que não lhes pertence.

         São dez para as três: sua filha está atrasada. Ontem ela não veio e segunda se atrasou também. O receio de que não venha hoje é a cria do medo em esperar pelo amanhã.

         Pois os lagos dos que ficam nos quartos durante as visitas são calmos, mas imersos num silêncio tão tenebroso como o mais encrespado dos mares.

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