As horas mesmas

November 5, 2017

         Os dias são feitos banais com horas mesmas, a se empilharem umas sobre as outras com a cumplicidade incansável dos minutos.

         A rotina se aproveita da calmaria e instala seu corpo cheio de pontas em todos os espaços dos horários: estabelece o fim do sono com gritos do despertador, espreme o tempo do almoço entre obrigações que julga importantes, enquadra o lazer numa tela de TV.

         Assim, os dias se tornam a planície de um deserto - a imutabilidade de uma paisagem assolada pelos ventos das horas e onde, vez ou outra, salpicam oásis e tempestades de alguma novidade.

         As pessoas cruzam, intercalam, justapõem seus desertos numa convivência de rotinas. E, em sua maioria, usam as noites para mudas conversas de descanso, distribuindo, no longo corpo sem luz das madrugadas, a convergência da paisagem de seus sonos.

         Os meses tornam-se então um acúmulo de números a se renovarem a cada trinta, trinta e um numa constância de marés.

         Nesse desfile monocromático dos dias, a previsibilidade é uma vantagem a afastar os sobressaltos, que somente ocasionalmente furam o bloqueio e se intrometem para atrapalhar a cadência dos passos. Mas o previsível pode também ser nuvem a eclipsar o sol das boas novas, impedindo o reconfortante calor das emoções.

         Pouco se pode contra quando se instala o acomodamento às vergastadas dos ventos das horas mesmas; quando se aceita sem mais nada a planície tediosa do deserto da rotina; quando o não querer ver torna-se a cegueira voluntária.

         Servo de si mesmo é aquele que manda no que faz.

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