A filha da noite

November 5, 2017

         Acompanhada, a madrugada caminha pelas ruas.

         Há o vento.

         Sibilando, corre no desassossego de criança solta, apressa-se como se não estivesse a cumprir sua ambição de refrescar a madrugada.

         Há também os postes.

         Numa estática procissão, despejam a claridade de suas velas-lâmpadas, abrindo o corpo da madrugada com fachos de luz.

         Há ainda o silêncio.

         Despertando timidamente no início da noite, passeia pela madrugada a desenvoltura de sua voz plena a calar o mundo.

         Aceita também a esguia companhia dos gatos, a deslizarem por si em roçar de pelos e olhos que dispensam os fachos de luz.

         Existe cumplicidade entre os gatos e a madrugada. Enquanto ela lhes esconde os movimentos, eles a povoam com a metafísica de mistérios antigos.

         Distrai-se, assistindo ao vento bagunçar todas a folhas de todas as árvores, empurrar papéis pelas ruas, incomodar o sono dos homens ao lhes sacudir as janelas.

         Acompanha desatenta a provocação ao silêncio pelos cães, a ladrarem com insistência aos espectros que o seu corpo negro esconde.

         Então, sempre que a noite se instala plenamente, afastando das ruas a anarquia metálica dos carros, livrando as calçadas dos passos certos e incertos dos pedestres, a madrugada chega com o vento, os fachos de luz e com o silêncio.

         Quando os primeiros raios de sol lhe riscam a pele negra, acontece um desconforto que lhe parece suportável - os postes já a testam com suas luzes. E ela resiste.

         Mas aos primeiros sinais de que os homens novamente tomam as ruas, ela começa a se recolher.

         Porque, humanos, a madrugada só os tolera ébrios.

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