Um abraço branco

October 9, 2017

         O mundo não passa de uma intuição sob a névoa a cobrir o vale. Estendendo-se até sumir no horizonte, forma um branco lago sem marolas que a noite encheu durante as horas de sua escuridão.

         Um homem olha a cadeia de montanhas a contornar o vale, protegendo-se do frio que o despertou - o vento foi caprichoso ao achar frestas no quarto e abraçá-lo durante toda a noite.

         Por trás de uma montanha, o sol envia recado de sua chegada na luminosidade de raios frescos, e a noite passa a ser uma lembrança e arrasta com lentidão  seu negro corpo informe.

         Como um deus onisciente de sua criação, o homem, diante desse lago calmo, sabe apontar onde está o vilarejo, a mata mais densa, o pasto, certamente vazio a essa hora da manhã - ainda recolhido ao curral, o gado espia o amanhecer com mugidos de preguiça.

         O frio vê as intenções do sol e dialoga permanência com o vento - e os dois, enlaçados, varrem o espaço chacoalhando galhos, molestando as folhas das bananeiras, tornando ainda mais fria a água que escorre de uma bica.

         Então o lago de névoa recebe o primeiro toque dos raios do sol, e o estremecimento de uma onda quebra-lhe a calmaria. O sol sobe mais e mais nos ombros da montanha, deitando seus raios no leito do lago de névoa e lhe roçando a pele alva com o despudor de dedos devassos.

         O torpor baço do lago começa a se esvair. A intimidade forçada do sol torna sua presença cada vez mais desconfortável à névoa, que se contorce em súplicas de liberdade, criando ondas maiores.

         Quando não há mais qualquer raio guardado no costado da montanha, a névoa se cansa de lutar contra a ousadia do sol e decide se recolher.

         O homem agora vê surgir o pasto, ainda um verde imaculado pelo desamparo do gado.

         Continuando a se proteger do frio e do vento, vê também, por entre etéreos rolos de bruma, o vilarejo soltar-se do abraço da névoa.

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