Despertamentos

September 4, 2017

         Álbuns de fotografia sempre emergem após anos de desamparo em profundezas escuras e mal ventiladas: gavetas pouco abertas, armários pouco vasculhados.

         Suas carnes empanturram-se de memórias e, então, eles entram numa hibernação que só terminará quando forem resgatados para que suas entranhas mostrem um passado congelado.

         De modo que, quando a mulher abriu a gaveta, o álbum adormecido no fundo apenas sentiu um tremor macio no deslizar da madeira. Mas a mulher começou a revirar os papéis que o cobriam. Logo, a claridade, há muito esquecida, tocou-lhe o rosto da capa - e uma leve possibilidade de vigília trincou-lhe o sono profundo. Ainda repousando no leito da gaveta, o álbum nada esperava.

         Tomada pela surpresa, a mulher o prende em suas mãos, decretando o fim do inverno das trevas.

         O álbum não desperta totalmente. Suas costas sentem a aspereza da mesa - a pedra de que é feita arranha-lhe a pele desacostumada. Mas tantos anos dormindo deixaram o sono pesado demais para abalar-se com tão pouco.

         A mulher alisa-lhe a capa, limpando-o da poeira acumulada que nem a pilha de papéis que o cobriam foi capaz de impedir.

         Sente percorrer-lhe o corpo o estremecer do despertamento, as mãos da mulher são carícias há muito esquecidas; as mãos lhe dizem frases de uma importância não ouvida em todos aqueles anos de sono.

         Quando os dedos da mulher lhe atingem a borda da capa e há a ameaça de que será aberto, de que suas entranhas serão reviradas e expostas à luz das lembranças, a pulsação da vida novamente o desperta.

         Pois, no instante em que as fotos são coladas em suas páginas, tornam-se sangue a coagular-se pelo esquecimento.

         Sangue que volta a circular-lhe pelo corpo quando são tocadas por humanos olhos.

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