Barcos e o fim de noite

July 23, 2017

         A pele de mais uma manhã começa a recobrir o corpo das horas, substituindo a já esgarçada pele da noite, que mais uma vez definha em estertores de madrugada.

         Pelas frestas da janela, o quarto recebe o regato de luz a iluminar timidamente o aposento, banhando a cama com os primeiros avisos de claridade.

         O homem e a mulher ainda dormem. Ancorados no revolto mar de lençol branco, adernam o sono na maciez dos travesseiros.

         Apesar de envoltos na mesma escuridão, passaram noites distintas. O sono da mulher teve a companhia de sonhos fluidos, que a fizeram navegar por espaços conhecidos a calmaria de lembranças adormecidas. O homem teve sono aos saltos, devaneios inseguros se singravam o rio do sono ou se simplesmente estavam a balançar no lago da vigília.

         Mas agora os dois dormem, desatentos, assim, à claridade, que mais e mais enche o espaço, na luminosa enchente de que é feito o dia. Respiram pesadamente em meio às ondas do lençol, sob o alvo céu sem nuvens do teto do quarto.

         O vento da rotina, que ronda o mundo com mais força assim que o sol ilumina a terra, invade o quarto quando o despertador toca.

         O homem silencia o barulho, a mulher gira o corpo e alisa ondas, os dois começam a recolher as pesadas âncoras do sono. Soltas nas profundezas da inconsciência, são recolhidas lentamente - pouco a pouco homem e mulher se acostumam à superfície em que bóia a vigília.

         O vento da rotina insiste em lhes inflar velas, levando-os aos conhecidos mares do dia a dia.

         Mas quando o homem toca seu estibordo ao bombordo da mulher, decidem-se por não içar as velas.

         Escolhem navegar um pouco mais no lençol, crispando com mais ondas o mar em que se ancoram todas as noites.

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