A surdez por piedade

July 23, 2017

         Confinados em um engradado preso à garupa de uma moto, quatro frangos espremem penas e bicos, espalhando protestos ao longo da estrada de terra. Solavancos do caminho jogam uns contra os outros, fazendo-os se abraçarem em desacertos de asas.

         Tão logo chegam ao sítio, o homem os coloca junto a outros cinco frangos em um galinheiro. Com mais espaço, as aves espalham cacarejos e bicam a terra em ânsia com cadências de monjolo.

         Meia hora depois, mais cinco frangos chegam. O espaço torna-se um pouco apertado, e logo surgem desavenças, alardeadas em gritos e voos curtos, que terminam contra a tela do galinheiro.

         Apesar de esperarem nada em manhã alguma, a manhã dessa sexta lhes traz a surpresa desse encontro, o compartilhamento de uma terra nua, a lhes entregar, com a insistência das bicadas, os bicos vazios.

         Com sorte, pode ser que haja uma chuva de quirela. Mas os frangos não sabem olhar o céu e predizer se haverá a nuvem da mão que a espalharia.

         Por isso, seguem cutucando o solo, continuam a se cruzarem no descaminho de seus passos sem ordem, chocam-se e reclamam.

         O sol custa a esquentar o dia, mesmo escoltado pela liberdade azul de um céu sem nuvens.

         Isso não interessa às aves, que logo já se esfregam asas, bicando juntas os parcos palmos de terra esgotada numa cumplicidade de penas.

         À pouca distância, uma faca sobre uma mesa, um tacho cheio de água quase fervente anunciam a brevidade da manhã de sexta para os frangos. Em realidade, dizem que doravante haverá a ausência perene de todas as suas manhãs.

         Anúncio e dizeres que eles não ouvem, fazendo-os aguardar o destino como quem não o conhece.

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