Rotinas

June 5, 2017

        O frio às cinco e meia da manhã é apenas a rotineira voz da madrugada a dizer os humores da noite.

         A essa hora, poucos são os olhos despertos realmente livres do véu do sono.

         Há uma pequena fila de três pessoas esperando atendimento. O lugar pequeno cria uma desnecessária aparência de tumulto. Mas ninguém reclama. Esperam com paciência a voz da atendente sobressair-se ao barulho de copos e chamar pelo próximo.

         À porta, um homem está parado como se seu objetivo fosse ter chegado até ali e agora hesita sem saber seu próximo passo. Já tirou e colocou duas vezes o boné na cabeça, olha a praça em frente, mas não enxerga as folhas das árvores e dos arbustos, resignadas com a companhia fria e escura da noite. Ele não enxerga e nem as vê - a escuridão, o sono e os habituais ecos de um torpor alcoólico dificultam-lhe ainda as vontades.

         Um rapaz, carregando duas caixas de leite, esbarra no homem, que tira e coloca o boné na cabeça mais uma vez, esfrega as mãos uma contra a outra, enfiando-as nos bolsos da frente da calça e levantando os ombros num espreguiçamento contido, que o leva ainda a erguer as sobrancelhas e fechar os olhos.

         A fila tem agora duas pessoas (não as mesmas de antes), o ambiente está mais apertado, o barulho de copos ganhou o apoio da pressa da atendente.

         O homem se aproxima do balcão. O gosto amanhecido de álcool prega-se na sua boca e afasta a fome. Quando ouve o chamado da atendente e não vê ninguém a sua frente, pede um pingado.

         Segura o copo e volta para a porta. Olha a praça clarear-se com a timidez enganosa do dia, pronto a dar o habitual bote de luz na noite.

         Bebe em goles curtos, as duas mãos roubando calor do copo - mãos moldadas pela rotina com tijolos e cimento.

         Tijolos e cimento que ainda e sempre lhe perfumam as mãos.

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