O tempo dura

May 7, 2017

         Têm sido tempos calmos.

         Faz mais de um mês que ela não ameaça ir embora, que ela não enche a casa com gritos, que suas mãos e pés não espalham copos e louças, tornando-os cacos. Ela já chegou a quebrar o blindei do banheiro. Mas foi uma vez só. Ele ficou preocupadíssimo que ela tivesse se machucado. Até hoje não sabe como ela quebrou aquele vidro grosso.

         Ele tem chegado tenso em casa. Abre a porta da sala e já olha a mesa de centro, os vasos perto da parede. Uma certa tranquilidade o acompanha casa adentro quando os vê intactos.

         Nesse mês e tanto de calma, ela reclamou de quase nada, só uma ofensazinha aqui, outra ali; um resmungo sobre ele não ser rico; lança um olhar atravessado quando ele faz algum comentário, junto com um pedido de “dai-me paciência…” - a paciência tem vindo, e ele, mesmo sem saber a quem, agradece.

         Assim como agradece não terem tido filhos. Lembra-se de que sofria quando seus pais brigavam. Seria muito pior se ele tivesse de proteger as crianças dos cacos, isolá-las dos gritos, ensinar-lhes, dentro de casa, o que é a fúria.

         As pessoas lhe perguntam como suporta, por que ele mesmo não vai embora. Um vizinho já o parou na calçada para saber se não precisava de ajuda. Na maioria das vezes ele sorri e diz que tudo está bem.

         Ninguém entende o quanto valem os momentos de doçura dela; os instantes em que a raiva se torna choro convulsivo no ombro dele; a sensação quente do corpo dela, que ele, às vezes, aperta contra o seu; o sabor da boca dela nos minutos de arrependimento.

         Ninguém conseguiria compreender a saudade de quando ela o abraça, de quando ela o abraça e o tempo dura.

Please reload

© 2023 By Henry Cooper. Proudly created with Wix.com