Hoje está tudo bem

April 2, 2017

         Inadvertidamente, alguns carros entram no cortejo fúnebre. Acompanham por algum tempo a fila lenta e, tão logo percebem, dela se livram como quem evita uma chaga contagiosa.

         Ainda há pouco, houve uma convulsão de choro quando a funerária chegou. Uma corrente de oração antecedeu quatro parafusos dourados selarem a tampa, que um homem de terno pegou tão logo ecoaram “améns” pelo velório.

         Bastou o homem de terno colocar a mão na alça para surgir a maré de mãos, na solidária enchente que sempre inunda, nesses momentos, as alças.

         As mãos, juntas, levaram em procissão, até um carro, parafusos, alças e o peso de quem não mais pergunta caminhos.

         O homem de terno deu partida no carro, acelerou pouco, alongando a primeira marcha tão suavemente que nem magoou o motor. Passou para a segunda marcha quando atingiu a rua.

         Ainda agora continua em segunda marcha, liderando a fila de carros a levarem pessoas com rostos nublados, algumas com olhos vermelhos.

         As flores colocadas sobre os parafusos, as alças e a tampa sofrem com o calor, com o cansaço por todas as horas em que ladearam o corpo desfolhado de vida - e o cheiro que toma conta do carro conta o irreversível desfalecimento das flores.

         O homem de terno liga para a mulher, ficou de confirmar-lhe o horário que chegaria em casa - às vezes os choros são tão convulsos que crescem em intermináveis ondas a se despejarem sobre o corpo, atrasando-lhe a tampa, retardando-lhe os parafusos, exigindo-lhe um pouco mais de pressão no acelerador.

         Mas hoje está tudo bem.

         A oração e os choros não foram longos, o trânsito flui normal.

         Despede-se da mulher, coloca o celular no banco de passageiro, mexe na gravata e aumenta o som do rádio - acaba de começar a tocar uma música que ele gosta muito.

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