Tudo o que se deixa

March 13, 2017

         As batidas na porta do quarto soaram tão alto no corredor do hospital que ela se imaginou culpada por perturbar todos os pacientes daquela ala.

         A porta é aberta, o rosto contrito da amiga emerge por entre a fresta como se temesse a visita que chega.

         Entra, a amiga a abraça numa lentidão apertada, cola o rosto ao seu e, de repente, sente sua face direita molhar-se. A anfitriã enxuga os olhos apressada e fecha a porta.

         Além da amiga, recebe-a uma penumbra envergonhada, que se deixa banhar  pela insistência da claridade do dia, a achar espaços na persiana.

         Em meio à incerta névoa de luz e escuro, a mulher vê o marido da amiga dormindo. Sobre o leito, um crucifixo fala, há muito anos, a silenciosa prece de uma proteção que todos os doentes esperam, nem todos conhecem.

         Quando a mulher se prepara para perguntar como o homem está, ele pisca, gira a cabeça sobre o travesseiro - e, pelo modo como o faz, parece que move o peso do mundo. Corre olhos nas duas mulheres e suspira no esforço dos que se apegam à vida: o ar sai-lhe da boca numa agonia quase indecisa entre entregar-se e lutar.

         A esposa abre um pouco a persiana, jogando no quarto a luz, que procura todas as brechas para se impor. Aproxima-se do marido, toca-lhe o braço, murmura algo em seu ouvido, volta-se para a mulher com um sorriso misto de desespero e confiança de que está tudo bem.

         A mulher vê a amiga alisar a face macilenta do marido, uma pele que parece sem poros, branca e vidrada na significação do sofrimento. Alisa a face e segura a cabeceira da cama tão firmemente que o sangue lhe escapa das pontas dos dedos.

         O homem fecha os olhos, a esposa se aproxima da mulher e maldiz, em voz baixa, a hora em que acreditou no telefonema anônimo que recebera.

         A mulher consola a amiga, afagando-lhe os cabelos, morde os lábios, à procura do que dizer.

         Mas tudo o que consegue fazer é olhar o crucifixo e pedir, em silêncio, perdão, enquanto as tenazes do remorso lhe apertam as entranhas.

Please reload

© 2023 By Henry Cooper. Proudly created with Wix.com