Salvo da escuridão

February 20, 2017

        

         Descobri de forma abrupta que eu era postiço (sou postiço).

         Quando minha mãe me disse que, na realidade, a minha mãe era outra, foi como se o Sol tivesse, por tantos séculos, banhado com luz a Terra por caridade, depois de encontrá-la boiando fria na vacuidade do espaço infinito.

         A princípio eu não queria saber coisa alguma sobre a falsa estrela que se recusara a me dar calor. Não queria saber em qual constelação gravitaria, o porquê de haver me confinado a uma solidão escura em um espaço incerto. Não queria saber nem mesmo quanto essa solidão durara - parecia que, de repente, meus ossos reverberavam séculos de dor da ausência materna.

         Senti raiva da mulher a quem eu chamava de mãe por não ter me contado antes, pois o que levaria alguém, se não o sadismo, a esconder isso por tantos anos, à espera de que o desgraçado - no caso eu - tivesse completa consciência de sua desgraça?

         Mas o tempo é água corrente a banhar a vida com a compreensão.

         Pouco a pouco, passei a aceitar o desvio que me jogara nos braços de minha mãe. Ainda não o entendia, o desvio, pois o entendimento é a consequência da aceitação - e eu não aceitava a recusa por parte do seio que me havia gerado.

         Aceitar o desvio trouxe ainda paz com a mãe torta que a vida me deu. A vida, ao menos a minha, é mesmo escrita certa e em desalinho em folhas não pautadas.

          Passei também a ver a beleza de todos os capítulos e versículos do evangelho de nossos dias. E agradeço todas as noites as mãos que me acalentaram, as mãos da mulher que sempre chamei mãe - e que nunca foi outra coisa senão minha mãe.

         Quanto a mulher que me colocou no mundo, desejo-lhe paz.

         E, se algum dia, sofreu com a esperança de que a vida cuidasse de mim, que possa sentir-se curada.

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