A memória dos peixes

February 6, 2017

 

         O líquido horizonte era vasto - tão vasto quanto sua ignorância de viver num mundo líquido. Juntos, todos os peixes a viverem numa concordância inconsciente de que água é o nome que se dá ao que não se vê.

         Havia tantos caminhos possíveis, tantas trilhas não demarcadas na vastidão salgada em que flutuava, cabiam distâncias do infinito, a derramarem-se em volumosa arquitetura líquida.

         Por vezes, ventos aquáticos traziam uma turbidez a preencher-lhe o mundo de névoa, enchendo seus olhos sem pálpebras com leitosa visão a criar sombras.

         Ao longo dos dias, nada mais lhe restava senão errar pelo espaço sob um céu também líquido, polvilhado por nuvens de espuma, que as marolas criavam. Restava-lhe aprumar-se contra as correntes e lhes dizer resistência no vigor de seu nado. Esperar as noites para dormir o sono torto dos olhos que não se fecham. E ainda espreitar os vizinhos, para escapar da visita definitiva de um predador.

         Até que uma turbulência o fez ver-se num mundo estreito, em que um simples movimento de cauda era o bastante para atingir-lhe o fim - realidade dura a quem só convivia com o infinito.

         E foram dias de escuridão nesse mundo restrito, como se o tempo, de repente, só se vestisse de noites.

         Então, novamente a luz. De novo um espaço límpido, claro como jamais pareceu ser.

         É certo que o recife está diferente, a vizinhança, desconhecida. Mas sabe-se lá o que pode acontecer depois de tantos dias de escuridão.

         Volta a nadar com a mesma consciência de infinito. Logo, choca-se contra algo que não vê e não entende.

         Assim como não entende como seu horizonte tornou-se difuso e habitado por sombras, das quais foge, pressentindo o perigo de novas turbulências.

       Em pouco tempo, aprenderá que a longa escuridão levou o infinito embora.

       E irá desejar que fosse verdadeira a curta memória dos peixes.

 

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