Foi de repente

January 22, 2017

        “Foi de repente…ele entrou pra tomar banho, depois de uns cinco minutos minha mãe ouviu um barulho, entrou no banheiro e encontrou ele caído debaixo do chuveiro.”

         O interlocutor balança a cabeça, numa discordância inócua, com uma expressão de sentido espanto.

         O filho não vira a cena. Mas, a cada vez que a contava, via o corpo do pai retorcido em meio à água, numa secura de vida.

         “Ele e os amigos estavam programando uma nova viagem de pescaria. Tinha começado a conferir a tralha dele, estava tudo jogado num canto da garagem. Minha mãe ficava brava. Cada vez que eu os visitava, ela reclamava da bagunça. Ele a olhava por sobre o ombro, levantava sobrancelhas, contorcia a boca naquele jeito dele. Mas não falava nada.”

         O interlocutor invariavelmente arma um sorriso complacente, às vezes diz “eu sei” ou “que coisa”; algum mais atrevido arrisca um “ele era terrível”, com a mesma entonação a descrever um garoto travesso.

         O pai não era tão idoso. Mas a velhice era alfaiate a lhe medir o corpo, a encontrar o lugar certo para cada ruga, a lhe espetar dores nas articulações, a lhe vestir a pele com seco tecido sem viço.

         “Nos últimos dias, ele só falava da pescaria: que eu devia ir com eles, da beleza do rio, que o dia passava e ele nem percebia - essas coisas que ele sempre falava sobre pescaria. Piscava tanto os olhos, naquele jeito dele de mostrar empolgação.”

         Nesse ponto, o filho olha de lado, concentra atenção em uma vela.

         “E de repente, isso…” - e aponta para o crucifixo colocado à cabeça de seu pai.

         A pessoa que ouve o consola, afastando-se após alguns segundos, dando lugar a outra, que o abraça e murmura algo que ele não entende, mas agradece.

         E então recomeça “foi de repente…”, numa repetição da história que dá vida ao pai, para ajudar o filho a aceitar o final das pálpebras fechadas.

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