Sobre dias normais

December 18, 2016

         Encosta a cabeça no ombro dele, olha um menino correndo pela praça e nada poderia estar mais certo.

         Ajeita o corpo contra o dele, encosta-se mais, encolhe os próprios ombros, para que o braço do homem consiga abraçá-la melhor.

         A tarde quente trouxe muitas pessoas à praça, esparramando-as por entre os bancos em que a sombra resolveu alongar seu negro corpo. Se chovesse agora, os bancos rapidamente ficariam entregues à líquida companhia da chuva, que entre a opção por tantos, escolheria todos.

         Ela coloca a mão esquerda entre as pernas dele. Aperta-lhe um joelho, movendo a cabeça para ver-lhe a reação.

         Ele estica um pouco a perna, bate levemente três vezes no ombro dela, sem tirar os olhos do curto horizonte de jardins e bancos.

         Ela volta a se aninhar no peito dele e sorri ao pensar no pulo que daria se ele lhe apertasse um joelho.

         Concentra-se em lhe sentir a respiração, às vezes mais longa, quando um arfar lento enche-lhe os pulmões. E o subir e descer do peito do homem diz a ela a normalidade da tarde de domingo - a normalidade de todas as suas tardes estaria em repousar sua cabeça contra o peito dele, ela já lhe dissera isso.

         Pouco se falam. Já passearam de mãos dadas por toda a praça, ela comentando, vez ou outra, o movimento das pessoas. Ele concordando com a opinião dela - ela fica muito feliz em dizer o quanto eles combinam.

         O relógio da igreja badala, e ela não quer contar-lhe os soluços a dizerem horas - cada badalo a mais apressa o momento de irem embora.

         Beija o rosto dele, que a olha com meio sorriso e pensa, e pensa, e pensa.

         O homem castiga-se há muito, pensando em como dizer à mulher que, para ele, a normalidade dos dias não suporta mais a cabeça dela em seu ombro.

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