Perpetuidade

November 20, 2016

         Eu os imagino nas primeiras naus, empoleirados em mastros e cordas, a bicarem o convés em teimosias de madeira, a sujarem com enfado os nós das cordas. Todo o céu disponível para eles o encherem com alongamentos de asas e eles presos nas caravelas, a voarem voos curtos, a falsearem fugas sobre as cabeças dos marinheiros.

         Acostumados às praças, devem ter sofrido nos meses em alto-mar ao buscarem inutilmente os ombros pacientes das estátuas, a arrulharem tristezas por bancos distantes, ziguezagueando em desvios de pernas inexistentes.

         As frotas trouxeram mais, mas não era preciso: os primeiros que vieram logo povoaram ninhos, porque, se as praças lhes faltavam, lembranças de toques de bicos não ficaram para trás.

         Mesmo que sem pensar neles, logo os homens criaram cidades, polvilhando-as com os jardins e bancos e monumentos a lhes trazerem de volta a conhecida paisagem ancestral. Nessas praças novinhas, junto às estátuas impolutas, a ousadia de sempre das crianças, a lhes perseguirem com abertos braços para vê-los revoarem numa combinação de quadrantes, ondeando pelo espaço a sincronia de voos. E também a mesma plantação estéril de farelos em solo duro - uma semeadura colhida na avidez de seus bicos insaciáveis.

         As naus que os trouxeram navegam agora em museus, os homens antigos trocaram de vestes e habitam outras carnes, mas seguem jogando-lhes farelos, seguem sentando-se em bancos e lhes oferecendo pernas, das quais desviam num automatismo de séculos.

         E os pombos continuam a escalar o vento em voos curtos, continuam a habitar as praças, a cuidarem das estátuas na perpetuidade de mantê-las com os ombros sujos.

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