A ausência dos carros

October 31, 2016

         Devo ter nascido com o sentimento de imponência. Sempre me fez tão bem senti-lo, que ele me impede de baixar meus galhos e assumir uma postura mais fina, ser um esguio tronco abraçado pelas próprias folhas, mas menos vistoso - menos imponente.

         Há muito já não consigo mais esticar galhos. Contento-me em enchê-los com o verde de folhas inquietas, a se assanharem com o vento e a se pintarem de amarelo quando o cansaço chega - e o cansaço cresce ao ponto de fazê-las despencarem aos bandos: eis, então, os galhos a exigirem vestes novas.

         De modo que, há muitos sóis, permaneço com a imponência constante, sem conseguir abranger nem mais um mísero centímetro de terra com a sombra de minha copa.

         Mas está bem assim.

         A firmeza de meus galhos, a não se permitirem arquear, tornam-me abrigo a carros eventuais, dos muitos que passam pela estrada - recolhem-se sob minha sombra, bendizendo-a; aninham, sem constrangimento, sua insignificância metálica ao pé do meu tronco.

         Outro sentimento que me é inato é o isolamento. Vejo parentes à distância, mas o gosto pela solidão não me deixa ir até eles - o mesmo gosto inato que não os deixa virem até mim.

         Na verdade, ultimamente as coisas não têm andado muito bem. As folhas parece terem se cansado de vez. E, pior, o cansaço delas parece estar contaminando os galhos.

         Há cerca de três sóis, fiz força descomunal para reter um em sua posição. Nem ordens imperativas de permanência foram suficientes para evitar-lhe a queda.

         Agora, há mais um ameaçando retirar-se - encostou-se em outro mais forte, suplicando-lhe que não deseja a terra.

         Esforço-me por mantê-lo, enquanto me distraio olhando os carros - sem entender o porquê de nenhum deles mais ao pé de meu tronco.

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