Conversas sob nuvem

October 24, 2016

         A porta do banheiro, apenas encostada, permite ao homem ouvir a mulher chamá-lo. Bem verdade que ela precisou gritá-lo por três vezes, mas conseguiu trazê-lo à porta, em que ele bate com os nós dos dedos a anunciar-se.

         Ela pede que ele entre, recebendo-o com a nuvem de vapor alimentada pela água quente a escorrer do chuveiro.

         Assim que o homem empurra a porta, a nuvem se assanha num frenesi de balé de gotas. Um pouco de vapor escapa, na fatal curiosidade que lhe dissolverá as fibras.

         O mormaço não o incomoda, mas apega-se ao espelho em paixões de condensação.

         Ao redor da luz, a nuvem insinua-se em vagas receosas - o calor a atraí-la é o mesmo que a faz se afastar.

         A voz da mulher emerge emoldurada pelo som dos pingos de água a estralarem no piso o susto pela ausência do corpo da mulher, quando inesperadamente não conseguem escorrê-lo.

         A excitação com o fato que quer conversar pedia pressa, por isso ela o chamou tão logo se lembrou de ainda não ter comentado com ele.

         A excitação dela não o contamina. O homem ouve, esparramando aleatoriamente interjeições de espanto, nascidas da vontade de ser atencioso.

         Ele faz uma pergunta, ela não ouve e, ao soltar um “que?”, esvazia as mãos de água contra o vidro do box, como se vê-lo tornasse mais fácil ouvi-lo.

         O homem repete a pergunta e passa a observar a mulher, despida do embaçamento do vidro que a cobria.

         Passa a olhar-lhe os contornos dos quadris, os seios insistentemente lambidos pela água, a escorrer-lhe na mansidão de dedos pacientes - todo o corpo dela liquidamente vestido, a acender-lhe uma outra excitação.

         Ele apaga a luz. A nuvem de vapor mal se move.

         O “ai” que a mulher solta é pelo susto da escuridão imprevista.

         O homem acende a arandela sobre o espelho - porque há excitações que conversam melhor à meia luz.

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