Quem disse que o sorriso é um sorriso?

September 19, 2016

        As rodas da cadeira mascam de forma imprecisa a terra no caminho com obstáculos do quintal: há pedras, montes de mato, buracos semeados pelo descuido.

         Param perto de uma jabuticabeira, abandonadas pelas mesmas mãos impacientes que transportam o velho e lhe colocam sobre a cabeça um chapéu de palha.

         As mãos se afastam com a desculpa de pressa pela desordem da casa, que pouco será organizada: nos dois quartos as montanhas de roupas espalhadas; pratos seguem com a semeadura de restos de comida dentro da pia; copos afogam-se na meia água que contêm; a poeira acomoda-se sobre os móveis em mares feitos de grãos finos.

         O velho são ossos e pele a se aquecerem sob o sol da manhã com retesamento de membros conquistados com a isquemia de um vaso no cérebro.

         Os lábios se arqueiam como a dizerem alegria, mas quem disse que o sorriso é um sorriso? As palavras não desaguam mais de sua boca, secas se tornaram pela maré perenemente baixa de sua língua inerte.

         Tudo o que o velho diz é com a forma retorcida de seu corpo esquálido na cadeira de rodas - a linguagem da suposição de dor nas elipses congeladas de seus membros.

         O vento traz distração ao balançar folhas e lhe assoprar nos ouvidos frases de correria no monossílabo de um uivo.

         Deixaram-lhe as mãos sobrepostas numa resignação que o velho romperia se a vida animasse novamente os gravetos de seus dedos.

         O sol vai aquecendo as folhas, muda de posição sobre o velho, trazendo-lhe a sombra de uns galhos sobre o lado esquerdo.

         Cai-lhe um certo cansaço das folhas, do desespero do vento, um desconforto com as sombras a emudecerem o calor do sol.

         Então, o velho espera a redenção pela inquietude das mãos impacientes, que o arrastarão de volta à desordem da casa.

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