Ecos

September 19, 2016

         Quando a mulher disse que ia verificar se não haviam se esquecido de nada, o motorista do caminhão de mudanças nem ameaçou dizer que não havia necessidade: muitas vezes já vira essa desculpa para a despedida.

         A  mulher entra na casa com a certeza de estar só, o motorista dá a partida no caminhão e acelera forte para o veículo vencer a ladeira com gritos de força do motor - gritos que o distanciamento os torna fracos como se a garganta que os solta estivesse rouca. O marido a espera com o carro ligado, na inocência de quem não faz mudanças, na ignorância desatenta do desejo da mulher.

         Há um silêncio novo pela casa; um silêncio cego a tomar cuidado em se desviar das quinas dos móveis ausentes.

         Os passos da mulher criam eco na casa vazia - com um pouco mais de atenção, ela diria que, mesmo seus movimentos de cabeça e braços e pernas ao caminhar, reverberam pelas paredes - carnes encardidas a denunciarem em suas manchas a presença dos móveis, que as assediavam com toques discretos. E os fantasmas, não tendo mais onde esbarrarem, não achando lugar para se esconderem, alimentaram o silêncio com vozes de fuga e sacolejam nesse momento dentro do caminhão.

         Os ecos incomodam a mulher; a luz, a entrar pelas janelas sem cortinas, mostra-lhe um corpo ainda firme, apesar do cansaço dos anos, e enche o espaço com a eloquência de uma claridade verborrágica.

         Lá fora, o marido olha o relógio, ameaça descer, desperta finalmente do sono da insensibilidade e desliga o carro.

         A mulher não mais passeia pelos aposentos, resta parada, sentindo…sentindo a respiração da casa esmaecer com a passividade dos definhamentos, restando somente os espasmos cheios de sustos dos ecos.

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