Nas profundezas de um espelho

September 5, 2016

         Gostava de sentar-se numa cadeira, que a avó mantinha no quarto, e vê-la escovar os cabelos. Passava a escova como se ainda houvesse muita onda para seu barco negociar, numa lentidão de maré a se encher, quando, em verdade, os atropelos de águas da vazante já começavam a correr acelerados para a avó.

         Era pequena, o tempo, um desconhecido que acompanhava apenas os adultos, por isso não tinha ideia de quanto durava aquela contemplação.

         Desconhecido também era o avô, a quem conhecia apenas pela boca da avó, em frequentes citações feitas com virar de olhos e dedos a girarem a aliança solta na mão esquerda.

         Foi tornando-se íntima do tempo, vendo-o encurtar as pernas da cadeira e curvar as costas cada vez mais esquálidas da avó. Ainda assim, continuou a gostar de vê-la pentear-se: sempre a mesma mansidão, a escova escorrendo pelos cabelos num palavrório misturado de cerdas e fios a dizerem alisamento, os olhos da mulher concentrados em si mesmos no espelho de um modo que a neta só passou a prestar atenção já mocinha.

         Os olhos da mulher não se interessavam pela conversa lisa de seus fios brancos, a neta percebia-lhes a preferência pelo mergulho das íris nos reflexos de si, do afundamento das pupilas nas suas imagens que o espelho devolvia, na quase ausência de movimentos das pálpebras, caladas para não interromperem a concentração dos olhos a se olharem.

         Nunca perguntou à avó em que ela pensava, em quais ondas navegavam seus sonhos em vigília, quais diálogos tinha nos longos minutos em que passava penteando-se.

         Quando terminava, a avó sorria para a neta, deixando no espelho profundas águas de onde, com os olhos, pescava memória.

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