Há de se ler as nuvens

September 5, 2016

         A maneira com que ele tem fechado as portas, com trincos calmos, é como o hálito morno a sair de sua boca, no exalar da respiração enfastiada - a respiração de quem reclama de algo, ou reclama de tudo, no contido ar lentamente liberto entre lábios semicerrados e palavras evitadas; a cabeça oscilando à esquerda e à direita em desaprovação, a reforçar o descontentamento.

         Faz dias que as atitudes da mulher irritam o homem. E por atitudes entenda-se ação ou omissão, a fala ou o silêncio. Em verdade, a presença dela é motivo para irritá-lo, fazendo com que a olhe com crescente impaciência, alimentada em silêncio, disfarçada na calma com que encosta portas num alisamento raivoso de maçanetas.

         A mulher escolheu a aceitação passiva, o não questionamento, a espera pela normalidade de dias tranquilos na resignação de crença de que os humores se cansam das carrancas.

         Ela tem olhado o cenho fechado do homem, seus resmungos em voz baixa, os movimentos de bicho acuado como sendo frases mal pontuadas, e espera que o retorno dele à lucidez da gramática da boa vida em que vivem as corrija.

         A mulher não percebe a escrita cada vez mais cheia de garranchos nos gestos do homem, a contundência cada vez maior com que pontua nervosamente as frases que lhe dirige. Esquece-se de que os humores podem tornar o acúmulo de nuvens pesadas em tempestade. Segue na espiral diária da negação, a contornar ameaças de destempero com o afastamento e olhos ao chão.

         E então, na banalidade de uma tarde vestida com a simplicidade de palavras rotineiramente ditas por ela, o movimento largo do braço do homem para fechar uma porta com um enfurecido grito metálico do trinco, trouxe a tempestade.

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