A claridade dos santos

September 5, 2016

         Puxa o ar duas, três vezes: “está feito…”, diz quase pausando em cada sílaba, as duas palavras saindo numa pastosidade a lhes marcar a concretude da convicção.

         O homem a sua frente lhe pergunta o que é que está feito. Deve ser a quarta vez que lhe faz a mesma pergunta. Olha o estranho, mas seus olhos trespassam a figura que lhe é desconhecida. Não reconhece ainda o lugar em que está: um quarto com paredes claras, uma cama clara, uma poltrona clara - ele mesmo vestido com uma espécie de avental branco. Não tem interesse em perguntar onde está, não vê necessidade de responder ao desconhecido, que o encara com uma atenção de vigia.

         O estranho pergunta de novo o que está feito, e dessa vez inclui o seu nome na pergunta.

         Olha espantado para o homem que o conhece, tentando se lembrar do rosto imóvel do desconhecido que, em realidade, parece nem piscar.

         Agrada-lhe a luz que entra pela janela, a amaciar a forma dos objetos, a deixar tudo com a claridade que já era esperada, agora que está feito.

         Tem sede. Mas não quer interagir com esses olhos que não se desgrudam dele.

         Olha ao redor e percebe-se deitado. Não havia reparado que estava deitado, e que ainda há uma agulha espetada em seu braço com um tubo fino e longo ligando-a a um frasco pendurado ao lado da cama.

         Vira de lado na cama e ouve o homem lhe perguntar do que ele se lembra, dizendo mais uma vez o seu nome.

         Não quer responder, mas pergunta a si mesmo do que se lembra.

         A resposta é uma paz macia como a luz a entrar pela janela, uma paz cheia de braços a se revezarem em abraços.

         Paz a lhe dizer de seu merecimento de um quarto claro, digno dos santos.

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