Oxalá a sintonia

July 11, 2016

         “A droga deste lado direito, que nunca mais aceita ordens nesta vida”, pensa o homem ao espetar um pedaço de carne com o garfo na mão esquerda, enquanto a faca na mão direita roça o alimento com falsos carinhos da serrilha.

         A  mulher diz algo que ele não entende, ouve apenas a palavra “teimosia” e não se interessa em pedir que ela repita. Ela puxa o prato para si, reduz o pedaço de carne a quadrados de tamanhos iguais aos que a mãe do homem reduzia quando ele era criança, devolve-lhe o prato.

         O garfo cava a comida com o apetite de cinco dedos metálicos; a faca pastoreia uns grãos de arroz, tenta agrupar os pedaços de carne, esforça-se numa organização, perdida no instante em que a mão direita a joga descontrolada sobre a comida: alguns grãos, uma folha de alface e um pedaço de carne caem para fora do prato numa deserção involuntária.

         O homem levanta a cabeça, mastiga resoluto, encara os outros à mesa com uma firmeza dura a afastar ajuda.

         Há alguns meses, garfos e facas não o contestavam, as pernas lhe obedeciam no que lhes compete: caminhar e sustentar-lhe o corpo. E num minuto banal, num ordinário minuto em que tudo estava cotidianamente normal, eis a brevidade de um piscar de luz em seu cérebro.

         É esse o modo como ele contaria a coisa: um breve apagão jogou-o numa cama de hospital e escureceu-lhe o lado direito para sempre.

         Uns dias de internação e a boca caída num amuo perene, o braço constantemente frouxo, a perna tomada por uma insanidade sem cura, a fazê-la jogar-se sem controle se tenta colocar-se em pé.

         “Há a possibilidade de melhora com fisioterapia”, disseram-lhe assim que deixava o hospital. Ao ouvir a palavra “possibilidade” da boca da fisioterapeuta, o homem olhou feio para sua mulher. O ânimo não melhorou nem quando a fisioterapeuta acrescentou “uma possibilidade muito boa”.

         Encara-se como um homem com meio cérebro, alguém que tem um meio corpo - e a outra metade precisa que outros a carreguem para si. Um homem com um corpo murcho, tendo um lado apenas com o tempo vivido e outro a viver numa estrangeira normalidade.

         Acredita-se um meio cidadão à espera de uma escuridão completa, que lhe harmonize o corpo: os dois lados numa sintonia finda de futuro.

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