Caminho e passos

July 11, 2016

         O caminho de terra é linha que se alonga e faz curvas e, se esticamos o pescoço, vemos que ele segue, entorta-se bem mais à frente, some.

         Some no mesmo silêncio com que vai surgindo no horizonte que humanos passos perseguem. Nesse perseguir, o barulho da terra sendo pisada, vai dizendo ao caminho ser impossível a fuga, que o alongar-se nunca será o bastante a pés famintos.

         À sua margem, árvores, moitas de capim, vegetação rasteira fazem-lhe companhia numa verde cumplicidade. Cercas marcam o limite do espaço da mata, da terra, que é seu corpo - limite respeitado mesmo quando mourões vacilam e caem, ao lhes faltarem o amparo dos farpados arames.

         Sob o sol e todos os seus dias, sob todas as noites, vestidas ou não de lua, o caminho guarda todas as pegadas, que não lhe pedem licença para lhe cravarem marcas, para lhe ferirem feridas secas de sangue, para se misturarem umas às outras numa babel criada pelo mesmo e único som da terra pisada.

         A languidez sinuosa com que se apresenta desconhece a fala dos séculos, desatenta que é aos murmúrios constantes do tempo: sua pele é congelado oceano de terra sem maré a lhe alterar o volume, a lhe renovar os grãos de um corpo, assim, imutável.

         Sem os passos a lhe comprimirem o corpo, o caminho resta-se subidas e descidas e curvas numa dormência sobre o leito de si mesmo.

         E são os passos que lhe despertam, as compressões sobre seu corpo o acordam do descompromisso de somente acumular grãos de terra, de perceber com sonolência a presença das árvores, são os passos que lhe agradecem por fazer-se imóvel presença esguia a ligar horizontes.

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