E o rio segue

July 4, 2016

         Desde que esticou líquidos olhos para fora da terra, a água escorre.

         Antes disso, alimentou-se de solo na constância de uma fome que a curiosidade fez insaciável - apalpando a terra, a água avançou pelo subsolo numa lentidão despreocupada de rumo.

         Ao sair, a desconhecida claridade lhe trouxe a cegueira, experimentou o torpor de estar em um mundo jamais imaginado, fustigou-lhe o nunca sentido calor -  ferocidade de mil bocas de fogo a lhe pinicarem a líquida pele.

         Desorientada, a água soltou-se morro abaixo, na crença ingênua de que escolhia o seu caminho.

         Rolou-se pela vegetação, encharcando as folhas com incaláveis palavras molhadas, passou sobre pedras após todos os esforços em levá-las consigo, arrastou pedregulhos com o convincente argumento de força.

         A noite não lhe trouxe o descanso de que não necessita - o cansaço não cabe em músculos líquidos -, e, por não necessitar de descanso, desfrutou, na noite do sossego ancestral da escuridão, da liberdade do fogo que lhe fustigava o corpo. E prosseguiu cumprindo uma ordem sentida por todos os aquosos poros de seu líquido corpo: caminhar e caminhar e caminhar.

         Um novo dia trouxe a claridade que já não mais cegava, trouxe o calor contra o qual já apenas resmungava.

         Insinuando-se pelos caminhos que surgiam, encontrou-se com outras águas e, apegando-se umas às outras, unindo seus líquidos corpos numa cópula interminável, avançaram pelo caminho o enorme volume em que todos os pontos é água.

         O rio segue.

         E o primeiro e surpreso fio de água já se salgou há muito, já espalhou por grãos de areia seus líquidos ossos, há tempos torrados pelo sol.

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