A penumbra e o peixe

July 4, 2016

         Sonos ao meio da tarde costumam me atordoar além da simples sonolência. Então, a difusa luz na janela do quarto dizia-me pouco sobre se era a manhã que apontava um dia ou se era a tarde a render-se a mais uma chegada discreta da noite. Os sinos de uma igreja não ajudaram muito, de modo que os badalos, numa alienação zonza, eu os contei aos milhares. É o celular, na frieza de esquálidos números a dizerem as horas, que me assegura que a tarde busca seu refúgio de sempre e se recolhe.

         Um abajur ao lado da cama traz a voz suave de uma luz a se contentar sempre em dizer a claridade da penumbra.

         Viro-me na cama, meu braço toca um inesperado obstáculo: a essas horas, geralmente, a cama sou eu e um latifúndio de liso lençol no espaço em que minha mulher dorme. Hoje, ela está aqui.

         A confusão ainda passeia passos em desorientação por minha mente - e não me lembro de havermos nos deitado juntos. Alguns segundos mais põem meus pensamentos em ordem, dando-me a certeza de que deitei-me só.

         Olho com surpresa o seu sono pesado, sua cabeça enfiada no travesseiro com o despudor de uma íntima comunhão.

         Tiro-lhe a colcha de sobre o corpo para acordá-la, mas recuo. A visão de suas costas nuas tem a persuasão de manter-me imóvel, simplesmente olhando-a. Afastando devagar a colcha, vou vendo a nudez avançar-lhe à cintura, descer-lhe pelos quadris, contornar-lhe numa maciez redonda as nádegas, alongar-se na lisa linha de suas pernas - ela inteiramente nua.

         Na penumbra, que sentidos restam além daqueles que à penumbra importam?

         Olho a imensidão branca do lençol - baía própria a um oceano de ondas de nossos corpos.

         E meus desejos mais uma vez são peixe a nadar de olhos arregalados no claro mar da  pele dela.

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