O silêncio dos ausentes

June 27, 2016

         As tardes do velho são fragmentos de tempo em que ora está desperto, ora um cochilar exige esforço do pescoço a cada solavanco da cabeça. O calor aumenta-lhe a preguiça, rodeia-lhe o corpo, sentado à entrada da casa numa cadeira pouco confortável, com sopros de um vento morno.

         Um homem passa vendendo picolé, puxando um carrinho pela rua de terra. Toca uma buzina de tempos em tempos e, às vezes, assusta-se quando uma criança joga contra o carrinho um ímpeto infantil.

         A buzina faz o velho abrir olhos, resmungar contra o barulho, contra o calor, mexer-se na cadeira, passar a mão pela boca como se afastasse um palavrão.

         Tem sede, vai até a cozinha, pega um copo que acabou de lavar - há mais dois dentro da pia, junto com três pratos e meia dúzia de talheres. Bebe a água olhando, pela janela, a montanha, que a essa hora do dia estica sombra para longe da casa. Quando almoçou, a sombra da montanha vestia a cozinha e lhe fazia companhia no escurecido abraço da mata verde. Ao terminar de comer, lavou a pouca louça, deixando para a sua companhia o trabalho de vigiá-la enquanto secava.

         Volta para a entrada e, antes de sentar-se, vê um bezerro se aproximar da cerca de arame que limita o terreno. O animal se aproxima, bate a cabeça no mourão no desacerto dos desajeitados.

         O velho cruza o alpendre, vence uns poucos metros de mato, pega uma vara encostada à cerca, maneja o braço com a determinação de armar um temporal e despeja sobre as costas do animal a brisa de umas vergastadas.

         O bezerro se afasta um pouco, olhando o velho com a mansidão curiosa dos olhos negros.

         A vara volta ao seu lugar na cerca, os pés do velho se arrastam de volta ao alpendre, o corpo solta-se sobre a cadeira num quase sem peso de ossos. Resmunga em sílabas desencontradas a formarem palavra alguma, apenas blasfemam contra o calor, contra o sono que o fará cabecear o ar como o bezerro à cerca.

         Pela porta da sala próxima à cadeira, sai a sombra fresca das casas vazias, sai o silêncio imperioso dos ausentes a tentarem confortar o velho com suas vozes antigas.

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