Cotidiano

May 30, 2016

         A luz acesa na cozinha é aviso da presença humana tanto quanto o cheiro de café.

         A madrugada, que ainda cai sobre o mundo, está com os minutos contados, resta-lhe não mais do que meia hora - mas ela ainda não o pressente. Há de se louvar a abnegação desse ser a carregar seu imenso corpo escuro sobre todas as coisas, por todas as noites. Cobrir meticulosamente todos os espaços com seu corpo trevoso é permitir uma sinfônica profusão de sons que os dias desconhecem: a conversa ininterrupta de insetos, o coaxar de sapos, a movimentação e diálogo de criaturas avessas à luz.

         Dentro da casa, a mulher termina o café rápido, pega a bolsa, apaga a luz da cozinha e deixa a moradia novamente entregue à escuridão.

         As luzes de alguns postes iluminam o caminho de terra, que lhe consumirá vinte minutos de caminhada. A mulher sabe as montanhas ao redor de si - imponência a cobrirem-se de mata numa aparência de rugosa pele verde à luz do dia e que, agora, dizem-se pela sonora rede a mostrar o que os olhos não podem ver. Mas a mulher não mais presta atenção às montanhas - suas grandiosidades desde sempre lhe rodeiam os caminhos.

         A mulher pisa o chão povoado de pedregulhos, e o som de seus pés mascando a terra vai calando os insetos à medida que ela avança. Mas há ainda o dialogar com desespero de muitos outros à distância, há a intromissão raivosa dos latidos de um cão no corpo da noite, proferindo ofensas a um perigo pressentido.

         Falta pouco para a mulher chegar ao trabalho.

         Incomodada pela claridade a espiá-la sobre uma montanha, a madrugada começa a recolher-se, deixando as criaturas - as suas criaturas -, abandonadas a uma orfandade que logo lhes esconderá as vozes.

         O sol joga-se sobre o mundo sem ao menos o pudor de um aviso. Assustada, a neblina, a pairar sobre a mata, inicia fuga desorientada, espalhando umidade e escondendo caminhos.

         A mulher segue seus derradeiros passos, a maioria dos insetos está muda, o coaxar dos sapos submergiu em águas rasas.

         E o dia ajeita seu corpo claro sob a atenção silenciosa e autoritária das montanhas.

 

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