Bendita seja sua reparação

May 30, 2016

         Uma carriola carregada de mourões novos mostra aos antigos ser chegado o momento da rendição. Fim do tempo em que, perfilados, unem-se uns aos outros por fios de arame farpado um pouco enferrujados, afrouxados pela insistência bovina em lhes testar a tenacidade com golpes de corpo e cabeça.

         Apesar de os mourões, depois de tantos anos, manterem ainda os corpos eretos, um homem lhes viu os sinais de cansaço: alguns se inclinam levemente, retesando os arames na silenciosa batalha da cerca para manter-se; outros mostram uma pendular indecisão tão logo um animal neles encoste; outros poucos tiveram as carnes mutiladas, restando-se espectros combalidos a deixarem os arames soltos numa orfandade de apoio.

         Os mourões novos desfrutam dos últimos momentos em que, deitados, tocam-se na intimidade nua de suas madeiras expostas. Logo irão se olhar na perenidade de seus dias a viverem enfileirados religiosamente sob um único mandamento: não cairás.

         Assim, o homem manipula uma cavadeira, faminta por terra segundo a força e a pressa do homem, alargando o buraco onde o mourão será colocado. Não há outras mãos a ajudá-lo, suas terras são poucas, o número de vacas não preenche os dedos de duas mãos. Mas a fome jamais conheceu aqueles caminhos, a pobreza é palavra que o visita pela boca dos outros.

         Pela boca de quem o vê em camisa de manga, botões abertos até a metade do peito, um chapéu gasto dialogando com o sol uma nesga de proteção. Pela boca de quem imagina os calos, das nuas mãos do homem, alimentando-se no cabo da cavadeira por horas a fio, e o suor lhe pedindo que dê ao corpo goles de água, entornados diretamente de uma garrafa térmica. A pobreza o visita no julgamento de quem o vê devolver a terra com os pés nus, após assentar o novo mourão.

         Um cão se aproxima da cerca com ganidos de fúria, passa o pescoço pelo arame farpado e se detém. Late, aos passantes, apenas com a cabeça para fora.

         O cão sente que, para além da cerca - bendita seja sua reparação -, para além da cerca há o perigo de uma visita que vem pela boca dos outros.

 

Please reload

© 2023 By Henry Cooper. Proudly created with Wix.com