Mesa posta

May 2, 2016

         Talvez a soleira da porta dessa loja fechada seja a cadeira disponível em uma mesa ausente, apesar de estreita para dar conforto ao homem que senta-se ali.

         Talvez a porta metálica que cerra a loja seja o espaldar dessa cadeira desconfortável, a dar às costas do homem um amparo incômodo, mas possível.

         O cão, deitado ao lado, olha, com as vagas pupilas onde cabem o universo, um arbusto mirrado rente a parede da loja fechada e talvez se satisfaça em chamá-lo de jardim.

         Talvez o homem passe a mão pelo tórax nu e se convença de que é ótimo assim, sem o trapo de uma roupa a incomodar sua pele grossa pela ausência de banho.

         Talvez a água quente, dentro de uma garrafa de plástico, alivie a sede, que não será saciada. E há ainda a companhia líquida da cachaça, pronta para dizer um mundo de sonhos vãos a parecerem tão autênticos…

         Talvez esse pedaço frio de pizza, combinado com essa fria mistura de um pouco de arroz com feijão, seja uma refeição e consiga calar a constante reclamação do estômago - uma reclamação soletrada com o cansaço de uma voz a saber-se não mais ouvida.

         O cão estica o pescoço na direção da vasilha com arroz e  feijão. O homem junta um punhado da comida com três dedos e o coloca na boca do animal. Repete o movimento por três vezes. Talvez alguém ache isso nojento.

         O homem coloca a vasilha dentro de uma sacola. Levanta-se e pega outra sacola cheia de latas de refrigerante vazias. Não diz coisa alguma ao cão, que ergue o corpo sobre as quatro patas e espera.

         O homem parte e deixa sobre o chão os restos do papelão que guardavam a pizza. Talvez assim a calçada se pareça com uma mesa posta.

         Talvez.

 

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