Presente eterno

February 28, 2016

         Estátuas são homens com presente eterno.

         Com seus olhos cegos, enxergam vultos que as rodeiam e não compreendem o porquê de se deixarem mover: tudo de que precisam está sempre próximo, tudo o que acontece é sempre tão justo.

         Aquelas que povoam juntas um mesmo espaço, olham-se na perpetuidade de um único e mesmo ângulo - e a rigidez seca de seus pescoços faz com que conheçam com precisão cada detalhe do que veem.

         As solitárias subjugam o horizonte da altura de seus pedestais, com a inalterável altivez dos que foram forjados fazendo-se crer superiores. Desprezam o sem sentido do que acontece a suas voltas, bastam-se na grandeza de si mesmas.

         Dias e noites nada mais são que a visita e a ausência da luz, ser sobrenatural a lhes tatear os corpos numa sem cerimônia calma e longa.

         Creem que o calor e o frio lhes habitam os corpos, fluindo e refluindo com uma precisão só possível a quem conhece cada centímetro de suas congeladas carnes.

         O vento é a estranha força que parece mover os vultos, levados de lado a outro pelo simples desejo de carregar - desejo que seguramente anima o vento. Elas, estátuas, têm a inata convicção do acerto em permanecer - vento algum foi capaz de as fazerem mudar de ideia e se deixarem levar.

         A chuva é casual luz materializada, a lhes percorrer os corpos com uma curiosidade minuciosa e atrevida.

         Assim, a vida é a mansidão de um estado único; um impossível e impensado estremecer de mãos; a inexistente articulação de uma palavra; uma inalterada e permanente visão; é a audição perene de um som pétreo.

         Para estátuas, basta a crença de serem homens a habitarem, rígidos, um mundo que jamais se move.

 

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