Metamorfose

December 15, 2015

         Tão logo a frase lhe escapou da boca, o arrependimento foi névoa a espessar-se em torno de si. Deveria ter esperado mais, ter criado um caminho um pouco mais longo de tempo, onde pudesse conduzir os pensamentos em sequência de possibilidades.

         Mas preferiu a colheita rápida da mentira mais próxima, o súbito arrancar de daninhas frases do despreparado terreno de palavras soltas, a se embaralharem em sua mente.

         E uma frase dita não tem o pudor por assumir-se como mentira - vive a vida que lhe foi dada, aproveita-se do frescor da crença com que é recebida e comporta-se com os jeitos e trejeitos da verdade.

         Quando o arrependimento tornou-se neblina, a lhe cobrar merecimento até mesmo do ar que, penosamente, lhe entrava pela boca, houve a salvação: na complacência escapada do olhar do outro, o sinal de que a mentira fora aceita.

         Aceita e acolhida no cais de outros ouvidos, ao ser propalada no mar do vento pelas velas de outras bocas.

         E quanto mais crescia a rede de aceitação, mais o arrependimento se encolhia. Aos poucos, desaparecia-lhe o constrangimento em repetir a frase, em confirmá-la. Ao contrário, as palavras lhe saíam da boca adornadas da líquida sonoridade de água limpa, vestidas com leves trajes a lhes enfeitarem as formas, impregnadas de um impensado e mal contido prazer.

         Então, o solavanco da primeira contestação.

         O espargimento de contestações foi ficando mais e mais volumoso, a torná-las cheia maré de um mar de dúvidas.

         A crescente maré começa a lhe afogar o prazer, a polvilhar lentamente notas de angústia quando, agora, tem de repetir a frase.

         E a angústia cresce tanto, aperta-lhe tão fortemente com suas mil raízes tenazes que, num momento de impensado impulso, abre a boca e destempera a verdade.

 

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