Alma prometida

November 23, 2015

         Corpo sem pele, o rio ainda assim não teme se expor. Não há outro ser capaz de permanecer íntegro ao revirar-se carne e entranhas a céu aberto. Não há outro corpo que se permite ser profanado por saber inabalável sua essência.

         Ao lamber a confusão de torso e dorso e membros do rio, o vento imagina-se senhor das águas, a jogá-las por entre os seus dedos sem que esbocem a menor intenção de resistência. Mas, em verdade, é o rio que se apega ao ar, revestindo-lhe o etéreo corpo com úmida pele.

         O sol despeja calor a cutucar a maciez líquida do rio com mil agulhas de fogo em implacáveis sessões de longas horas, julgando-se algoz involuntário, incapaz de aplacar por si só a infernal torrente que despeja sobre a plácida massa de água.

         As pedras perfuram o rio com a impiedade de finas arestas, rasgam-lhes em mil cortes com rochosos ângulos, desorientando-se, porém, com a secura do corpo retalhado que não sangra. Mal percebem, as pedras, a erosão lenta de sua tenacidade, o desgaste de sua cortante ferocidade a lhes arredondar as formas, calando-lhes a agressão e as deixando rugir uma fúria de cascalhos.

         Quando a podridão e o lixo se alojam no regaço do rio com ameaças de pestes e morte, impregnando-o com a repulsa de seus cheiros pútridos, não é sentida ameaça alguma pelos líquidos ouvidos da águas - elas apenas carregam as doenças na mutilada incapacidade de as deitar fora.

         Pois é impossível a morte ao corpo nascido com a alma prometida à libertação do mar.

 

Please reload

© 2023 By Henry Cooper. Proudly created with Wix.com