O tempo, As horas

September 22, 2015

 

         Ainda ontem, o tempo era a marcha cíclica de minutos a correrem num frenesi capaz de atropelar as horas e jogar, no colo do homem, o fim do dia ainda repleto de obrigações inconclusas.

         Ainda ontem, o cansaço desse atropelo o jogava sobre a cama, desejoso do alheamento da madrugada, que se alimenta das horas e, assim, livra momentaneamente o homem da implacável perseguição dos segundos.

         Ainda ontem, restava-lhe nas manhãs tanto sono que o homem se levantava somente porque o tempo lhe gritava toda a sua urgência na estridente voz do despertador.

         Ainda ontem, a mulher e os filhos se debatiam no mesmo mar revolto de horas, espanando-lhes as mãos com atarefadas gotas de minutos na incansável opressão silenciosa do tempo.

         Agora, ainda é em silêncio que o tempo toca a incessante música dos minutos, mas o som ausente não mais atropela o homem.

         O homem chegou à ilha em que todos aportamos antes de perdermos a permissão de boiar e afundar e boiar e afundar no repleto mar de horas da vida.

         Cabe-lhe apenas olhar o líquido balançar de minutos a não mais lhe jogarem coisa alguma no colo, a não mais lhe pedirem atenção enquanto escoam. Parece-lhe que, agora, as madrugadas mastigam o tempo numa lerdeza de maxilares frouxos, que a mulher e filhos se debatem no mar em que ele não pode mais se banhar. O sono lhe resta o dia inteiro, transmutado num perene torpor, que mal lhe permite abrir os olhos.

         Olha a tudo com resignada calma.

         A mesma calma de um cão que, sentado à sombra de uma árvore, contempla com órbitas vazias o universo, à espera da ordem de que deve ir-se embora.

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