Diálogos

August 30, 2015

         Foi o desespero alado dos pássaros, a deixarem no céu as pegadas sonoras de seus gritos, que despertou o homem.

         Ainda estava escuro, na janela do quarto havia somente um sussurro de claridade a  se esgueirar timidamente pelas frestas da veneziana.

         O homem toma um gole da água do copo, colocado sobre o criado-mudo, e ajeita o corpo na cama. Mais um dia em que as horas vão fluir sem lhe pedir atenção a coisa alguma - os dias apenas o conduzem, empilhando meses a lhe acentuarem a velhice, num tácito acordo em que o velho e o tempo não se questionam sobre a existência de um e do outro.

         Os pássaros trazem novamente a confusão de berros desconexos: seriam os mesmos?, seriam outros, a responderem os primeiros?, não percebem a inutilidade dessa gritaria, visto que todos os dias repetem o mesmo discurso?

         Não conseguirá dormir mais, tampouco deseja levantar-se - a isso chamariam preguiça, mas em seu caso é simplesmente a desnecessária necessidade de escolha entre uma coisa e outra.

         Toma outro gole de água e se engasga.

         Tenta abafar a tosse, a mão tapando a boca na infrutífera tentativa de domar o atropelo de uma agonia a escapar em arrancos de sua garganta, o corpo se levanta no automatismo de vencer o sufoco.

         Represada, a tosse se rebela e escapa desenfreada em uma sofrida rouquidão.

         Quando consegue se acalmar, o velho olha para o lado e vê sua mulher pousar-lhe os olhos, a perguntarem “o que foi?” na ausência de palavras dispensáveis.

         Ele bate-lhe no peito coberto leves palmadas, volta a se deitar, o dia ainda não chegou de todo, os pássaros certamente não se cansaram do falatório de sempre e voltarão.

         Enquanto isso, escorre a mão sob a colcha, procura a mão da mulher para que seus dedos dialoguem no habitual entrelaçamento das manhãs.

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