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August 30, 2015

       Cutuca o braço do amigo, mostra o cigarro apagado. Um rápido cavucar num bolso da calça e um isqueiro passa de um homem ao outro.

         Não gostam de sentarem-se dentro do bar. Preferem observar o movimento da rua sentados na porta da loja ao lado, fechada há pouco pela inadiável ordem das seis da tarde.

         Durante alguns minutos, seus cigarros dançam um descoordenado balé de brasas, dialogando argumentos de fumaça.

         Um dos amigos se levanta, entra no bar e sai com duas latas de cerveja. Coloca uma no chão, entrega a outra para o do isqueiro, enfia umas notas amassadas e duas moedas na calça. Limpa as mãos na camisa, num habitual e inócuo gesto - o cimento incrustado em suas mãos precisa de argumentos mais fortes para deixá-las. Senta-se junto ao do isqueiro.

         Dois estalos quase simultâneos são os avisos de que a proteção das latas foi rompida. Um pouco de espuma lhes escapa dos corpos violados, numa curiosidade que desconhece o perigo: os homens logo sorvem as espumas, viram as latas nas bocas, no comprimento exato de dois goles.

         O do isqueiro pega mais um cigarro, o amigo o acompanha.

         Segurando, cada um, a sua cerveja e o seu cigarro, desatentos ao vozerio que sai do bar, os dois homens olham o movimento de carros, enquanto escoem, aos solavancos, de suas bocas palavras a formarem um pouco volumoso riacho de um diálogo - suporte para o caudaloso rio de goles, a atropelarem as palavras e encharcá-las com a veemência etílica da cerveja.

         Dois cigarros depois e as latas estão secas, restando seus esqueletos de metal a um canto da porta da loja.

         No meio-fio, duas bicicletas aguardavam na obediência muda de rodas e pedais. Agora, elas se despedem.

         E cada uma escolhe uma rua para despejar o mesmo discurso de marmitas vazias e corpos cansados.

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