Epitáfio

August 10, 2015

         Aquele foi o dia em que tudo acabou.

         É claro que isso é força de expressão, sei que, na realidade, aquele foi o dia em que definitivamente aceitei que tudo tinha acabado.

         Estávamos visitando um cemitério muito grande - sim, também sei que isso soa como um clichê, mas a realidade não se importa com filigranas para acontecer. Estávamos naquele cemitério, à procura de túmulos de pessoas famosas, quando nos separamos um do outro. Não foi proposital: peguei uma rua à esquerda, ela deve ter continuado em linha reta e entrado por outra rua mais à frente - quando percebi, não a via.

         Vasculhei ao meu redor com os olhos, não a encontrei, mas pensei que ela sabia onde eu estava e que logo apareceria - a gente sempre acha que o outro vai nos encontrar.

         Não sei quanto tempo se passou, pareceu-me muito, mas não deve ter sido, quando ouvi o meu nome.

         Ela também havia se perdido de mim e me chamava.

         Em meio a tantas lápides, não consegui vê-la. O estranho é que eu não conseguia ter certeza de onde sua voz vinha.

         Gritei uma vez “aqui”, e achei aquilo ridículo. Um jardineiro, que cuidava das flores de um túmulo, olhou para mim com certo espanto - ao menos eu senti espanto em seu olhar -, e eu quase lhe pedi desculpas.

         Ouvi meu nome por três vezes e, então, silêncio.

         Olhava as lápides: havia tanta gente conosco, ainda que estivessem mortas, e não havia mais nós, como há muito deixáramos de existir. Caminhando em meio a tantas pessoas esquecidas, fui tomado subitamente pela certeza de que, quando a reencontrasse, eu olharia para uma estranha. Uma estranha com quem eu me acostumara a dividir a cama nos últimos quarenta e cinco anos.

         Tive vontade de me encolher atrás de um daqueles túmulos, petrificando-me, tornando-me lápide de mim mesmo, e torcer para que o silêncio da sepultura contasse a ela toda a verdade, poupando-me o desgaste.

         Você me entende, não é, querida?

 

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