O quarto eterno

April 13, 2015

         O quarto é uma música congelada no tempo. Raramente aberto nos últimos vinte anos, guarda uma sonoridade fria, um sol antepassado incapaz de trazer calor; emana o hálito mofado de coisas velhas, posto que ausente de humanidade.

         Sobre a cama, um travesseiro ligeiramente fora do esquadro da cabeceira, uma colcha dobrada com a pressa desatenta de jovens mãos.

         A um canto, dois tênis discutem perenemente o descompasso de não estarem lado a lado; um calção recosta-se à parede num cansaço incessável, dormindo há anos um sono que não lhe perguntaram se tinha.

         A mulher, agora velha, durante todo esse tempo, guardou a chave da porta com a sacrossanta religiosidade dos devotos.

         Uma vez por semana, ela mesma faz cuidadosa limpeza, aspirando o pó e movendo o menos possível os objetos.

         O marido sempre foi contra manter essa cicatriz dentro de casa, brigou com a mulher para que guardasse algumas poucas coisas. Como castigo, foi proibido de entrar no aposento.

         O homem morreu há pouco mais de dez anos, e tudo que o lembrava foi se dissolvendo pelos desinteressados dedos das mãos da mulher, num esfacelamento imperceptível, a poupar somente um retrato, a restar resignado esquecimento em meio a outros retratos sobre uma cômoda.

         A velha não mais precisaria trancá-la, mas a porta segue fechada, a chave escondida numa inútil proteção contra mãos inexistentes.

         Desde que o marido se foi, a velha passa mais tempo no quarto.

         Sentada próxima à escrivaninha, saem-lhe da boca palavras cheias de um cansaço antigo. Em resposta, ouve a repetição de frases conservadas há mais de vinte anos, a repetirem uma ausência para a qual a velha é eternamente surda.

 

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