Os mortos reúnem os homens

March 16, 2015

 

         O morto segue no papel que lhe compete. Encostado no centro de uma parede, estende-se deitado em sua última e rígida vestimenta, a separar o mar de gente como o cajado separou águas. As pessoas o margeiam em comedidos movimentos, sussurram a transitoriedade da vida, enxugam lágrimas em alguns soluços contidos.

         Uma fila desorganizada marcha passos contritos em direção à viúva para lhe despejar um ensaiado discurso de pêsames. A mulher está cansada, mas as mãos se sucedem, assim como os afagos em suas costas.

         Alguém lhe oferece uma cadeira, mas sentada ela não enxerga o marido - e ela logo está novamente em pé ao lado do caixão, a tocar a mão do homem com o cuidado de quem vela o sono.

         Algumas pessoas se olham com uma familiaridade indecisa, aproximam-se na suspeita de se conhecerem, sepultam os anos desencontrados com apertos de mãos e abraços tímidos. Os reencontros se tornam então ilhas móveis, alimentadas pelo parentesco, a andarem à deriva numa profusão levemente ruidosa de braços e meios sorrisos.

         Mas nem o sangue compartilhado consegue mascarar uma convivência resumida a lembranças cavadas em passado coberto de névoas.

         E logo as ilhas vão se dissolvendo na secura de assunto, no constrangimento da perdida intimidade, no desconforto em tentar ser próximo de quem há tanto é distante.

         A maré em torno do morto atinge seu ponto mais baixo: ele é banhado pelos olhos da viúva e por outros que lhe eram bem próximos.

         A maré que o carregará pela primeira e última vez, tão logo o deposite no seco leito da tumba, irá se dissolver em mais um desencontro de anos.

         Até que surja um outro morto.

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