A clamar pelo sono

February 19, 2015

         Abre os olhos na lentidão do sono, que luta para permanecer. Pisca duas, três vezes, encara a escuridão - um imenso corpo nu a lhe esfregar nos olhos sua escura pele. Ouve um grito vindo da rua e se assusta. Gira a cabeça, apura ouvidos. Ouve apenas o som negro e morno da noite abafada.

         O susto faz com que o seu sono arregalasse olhos - o homem há de esperar que ele novamente se acomode, antes de abraçá-lo mais uma vez e afastá-lo lentamente da vigília.

         A noite traz o barulho de pneus mordendo o asfalto com estridente avidez. Pensa em se levantar, olhar pela janela, ver o que acontece. Espera um pouco mais: o sono segue agitado, mas o homem sente a preguiça do corpo recém-desperto.

         Procura com cuidado a mulher pela cama - não quer despertá-la. Mas o toque é mais forte do que queria, e a mulher se mexe perguntando “o que foi?”. “Nada”, responde enquanto se vira na cama para tentar achar uma posição mais confortável para o sono.

         Mas seus olhos seguem abertos - e o sono não se acomoda em pálpebras expostas. A janela, sem qualquer traço de claridade, reverbera o ainda firme discurso da madrugada. Seus ouvidos recebem a monótona voz da noite, a dizer sua constante conversa muda.

         O pensamento sobre um problema pica-lhe a mente. O homem tenta afastá-lo, mas a incisão aumenta um pouco mais, abrindo espaço para que o problema mostre o torso de seu intrincado corpo a pedir que o homem o examine.

         Nova mudança de posição na cama, um suspiro longo, um arregalar de olhos dentro da escuridão a clamar pelo sono.

         Não adianta.

         A mente do homem está tomada pelo parasitismo do problema, que se alimenta de ansiedade e se alastra pelos espaços onde o sono, ao menos nessa noite, não mais conseguirá entrar.

 

 

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