Três peixes

January 15, 2015

         As pessoas se entrecruzam, esbarram-se numa calada interação sem sentido - é somente o espaço curto que coloca ombro contra ombro, a se desvencilharem na desajeitada dança do movimento de troncos.

         O calor intensifica e mistura os cheiros das barracas, cria um jardim de odores em que o nariz colhe frutas, verduras e carnes.

         Um homem busca o refúgio de uma marquise para estender o corpo ao longo da sombra. Olha as pernas passarem ante si com o tédio que a fome cria e alimenta. Balbucia alguma coisa, às vezes, num instintivo ato de fazer com que os donos das pernas o vejam.

         Senta-se, apóia a mão, estendida num joelho, onde goteja, sem ritmo, a imprevisibilidade de uma moeda. Numa embalagem de refrigerante cortada, tem o raso lago que as gotas criam. Ao seu lado, um cão encosta-se à parede e pisca preguiça.

         As pernas começam a diminuir, passam a ser vultos esquálidos surdos aos balbucios do homem, o vozerio se restringe a alguns gritos avisando que “é pra acabar”. O lago continua raso, o tédio, grande.

         O homem se levanta, passa pelas barracas que começam a serem desmontadas, dirige-se às pessoas a contínua intromissão de um pedido, e tem o cão como sombra fiel a balançar ossos.

         Inesperadamente, em meio ao seco leito que percorre, jorra-lhe à frente um saco marrom de papel e a torrente de um “toma”.

         O homem pega o saco, abre-o com a modorrenta lentidão do tédio e descobre a provisão de três peixes em escamas metálicas e olhos congelados no espanto dos afogados. O cão espicha o pescoço, fareja o saco em golpes curtos de focinho.

         O homem segue, no incerto rumo dos nômades perdidos, segue arrastando os pés no asfalto quente.

         E a fome sente um desconforto ao notar, de dentro do saco marrom de papel, os fixos olhares de três peixes mortos.

 

 

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